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Pequenos contos

Anjos na Terra sem Asas

(Pequena nota prévia: texto escrito em 2011 um breve ensaio, não porque goste particularmente do tema, mas porque fui desafiado a integrar uma colectânea "Ocultos buracos" de vários autores sobre o horrivel... ) 






Estava escrito nas estrelas que Ella haveria de ser um pequeno anjo na Terra... ou talvez não. E por isso mesmo, custasse o que custasse, teria de voltar a este mundo.

A sua vida fora demasiado curta; todos o sabiam, ainda que ninguém tivesse coragem para o dizer em voz alta. Não era suposto que assim acontecesse.

O breve tempo que passara entre nós não lhe permitira cumprir os desígnios para os quais parecia destinada. Todo o ser que nasce traz consigo um propósito. Alguns vêm ao mundo para realizar grandes feitos; outros, a esmagadora maioria, apenas ajudam a empurrar a roda silenciosa da existência, contribuindo para a constante transformação da vida. E existem ainda aqueles cuja presença parece surgir apenas para lembrar que nem tudo obedece a regras, nem sequer ao destino.

A vida de Ella fora efémera.

Um cancro cruel vencera-a, roubando-lhe a existência antes do tempo. E ninguém, ou quase ninguém, naquela sala conseguiria responder com certeza a uma simples pergunta: quem perdera verdadeiramente aquela batalha?

Teria sido a doença a triunfar...

Ou teria sido a criança a cansar-se de lutar?

Por isso mesmo haveria de ser enviado um mensageiro; alguém incumbido de perceber onde falhara aquilo que fora traçado, o que impedira a concretização do caminho que lhe estava destinado.

Ella falecera precisamente no dia em que completaria seis tenros anos.

Todos os presentes permaneciam entre aquelas quatro paredes frias e silenciosas onde velavam o seu pequeno corpo. O caixão branco encontrava-se iluminado apenas por uma ténue luz junto à cabeceira e por quatro círios acesos cujas chamas oscilavam inquietas, como se pressentissem algo prestes a acontecer.

— Deve ser uma corrente de ar — murmurou alguém.

Mas não.
Estava enganado.
Ella era ainda uma criança; um pequeno anjo sem asas na Terra, prestes a partir para os céus. Contudo, a estranha inquietação que se fazia sentir naquela sala não vinha do vento.
Vinha de outra presença.
Ninguém reparara nela até então.

A figura surgiu silenciosa junto à entrada da pequena capela, envolta num comprido vestido negro que quase parecia arrastar-se pelo chão. Caminhava lentamente, como se o tempo tivesse abrandado apenas para lhe abrir passagem.

Na mão trazia uma simples margarida branca. Aproximou-se do féretro sem olhar para ninguém. Delicadamente, pousou a flor sobre o vestido de Ella.

A criança parecia dormir. O rosto sereno permanecia indiferente à dor, às lágrimas e aos murmúrios que enchiam a sala.

A mulher inclinou-se ligeiramente e sussurrou palavras estranhas:

— Manet in limbo. Vita in caelo insidiatur potest.

Os presentes entreolharam-se, confusos.

As palavras eram estranhas e incompreensíveis, quase hipnóticas, como se possuíssem um significado escondido que ninguém conseguia alcançar.

Ninguém... Ou quase ninguém.

Num dos cantos mais escuros da sala, junto às colunas de pedra, alguém escutara atentamente cada sílaba.

Baixou os olhos. nPermaneceu imóvel. Sentia-se protegido pela sombra e pelo anonimato. Enquanto todos observavam a estranha mulher, ele limitava-se a sorrir para si próprio.

A mulher pareceu pressentir algo.

O seu olhar deslocou-se discretamente pela sala até parar por breves instantes naquela zona escura.

Depois desviou-o.

Dirigiu-se aos pais de Ella. Sentados diante do pequeno caixão branco, choravam em silêncio, exaustos pela luta travada nos últimos meses. Não eram apenas lágrimas de dor. Eram lágrimas de cansaço.

Dois meses. Tinham bastado apenas dois meses para destruir todas as esperanças, todas as promessas, todos os sonhos.

Dois meses para perderem uma filha.

Por momentos esqueceram a estranha presença e levantaram-se por respeito.

Nenhum dos dois a conhecia.

A velha mulher sorriu-lhes com doçura e então falou:

— A missão d'Ella ainda não terminou.

Os dois estremeceram.

Ella?

Aquele nome. Aquele diminutivo não era conhecido por quase ninguém. Era apenas deles. Um nome usado em casa, entre os dois, nos momentos mais íntimos.

Trocaram um olhar inquieto.

— Desculpe...? — perguntou a mãe, entre lágrimas.

A mulher repetiu calmamente:

— A missão d'Ella ainda não terminou.

— Missão?... Que missão? — perguntou a mãe, agora com a voz trémula.

A mulher sorriu-lhes novamente.

— Mais tarde compreendereis.

— Importa-se de nos explicar o que quer dizer? — perguntou o pai.

A mulher manteve-se serena.

— Hoje não. Hoje há nesta sala alguém a mais.

O silêncio pareceu tornar-se mais pesado.

— Alguém responsável por tudo isto.

Fez uma pausa.

Olhou novamente na direcção da sombra.

— Ele sabe do que falo.

A mulher permaneceu imóvel durante alguns instantes, como se aguardasse algo que apenas ela pudesse ouvir.

Depois voltou a dirigir a atenção aos pais.

— A vossa filha tinha um caminho traçado. Havia algo que lhe competia cumprir, mas o fio foi interrompido antes do tempo. Nem tudo aquilo que começa termina quando deveria... e nem tudo aquilo que termina está verdadeiramente acabado.

Os pais escutavam sem compreender.

A dor, o cansaço e a estranheza confundiam-se dentro deles.

— Talvez um dia entendais aquilo que hoje vos parece impossível — continuou ela. — Mas ainda não chegou esse momento.

O pai apertou a mão da mulher.

— Desculpe... mas quem é a senhora?

Ela olhou-o demoradamente.

Havia naquele olhar algo de antigo. Algo difícil de explicar.

Um olhar cansado, como se tivesse atravessado demasiados séculos.

Depois sorriu. Mas não respondeu. Em vez disso, virou-se lentamente para todos os presentes.

A pequena sala mergulhou num silêncio absoluto.

Até as crianças presentes deixaram de se mover.

— Esta criança partirá hoje — declarou com voz firme — mas dentro de algum tempo voltará a ser gerada no ventre de uma das mulheres aqui presentes.

Alguns arregalaram os olhos. Outros desviaram o olhar. E houve quem sentisse um arrepio subir pela espinha.

A velha ergueu ligeiramente a cabeça.

— Contai doze luas cheias... e encontrareis a resposta.

Silêncio.

Um silêncio pesado.

Louca.

Era a única palavra que muitos conseguiam encontrar.

Louca.

A velha teria perdido o juízo. Não podia existir outra explicação. Mas ela parecia ouvir pensamentos que não lhe pertenciam.

Sorriu discretamente.

Depois voltou-se para o pequeno caixão.

Aproximou-se de Ella.

Pousou a mão sobre a madeira branca.

Fechou os olhos.

E repetiu:

— Manet in limbo. Vita in caelo insidiatur potest.

As chamas dos círios vacilaram de forma brusca.

Desta vez ninguém falou.

Ninguém se atreveu.

A mulher abriu lentamente os olhos.

E então encarou a escuridão junto às colunas.

O seu rosto mudou. Pela primeira vez deixara de existir serenidade nele.

— Tu.

Algumas pessoas seguiram instintivamente a direcção do olhar.

Nada viram. Apenas sombra.

— Podes deixar cair a máscara.

O silêncio respondeu-lhe.

— Sei que estás aí.

Nada.

— Tentaste-a.

A voz tornara-se mais dura.

— Tentaste-a e esperaste que desistisse.

As palavras ecoaram pelas paredes frias da capela, e então ouviu-se um ruído. Muito leve.

Uma cadeira a arrastar. Algures na penumbra, uma figura levantara-se. Ninguém lhe distinguia o rosto. Ninguém conseguia perceber quem era. Apenas o contorno escuro de alguém que caminhava lentamente na direcção da saída.

A mulher observou-o sem pestanejar.

— Vai-te embora.

A figura continuou a caminhar.

— Vai-te daqui, demónio dos demónios.

Algumas pessoas prenderam a respiração.

— Fraco disfarce o teu.

Por um instante pareceu ouvir-se uma pequena gargalhada. Ou talvez tivesse sido apenas imaginação.

A porta abriu-se lentamente, e voltou a fechar-se. Um som seco e estranho ecoou pela capela.

Tudo terminara. Ninguém ousava levantar a cabeça, muito menos falar. Como se, de alguma forma, receassem descobrir que aquilo tinha sido real.

Só a mãe de Ella permanecia imóvel. Porque algo dentro dela acabava de despertar. Uma memória. Uma conversa... Palavras ditas semanas antes.

Palavras que na altura lhe pareceram apenas delírios de uma criança cansada.

Mas agora... Agora pareciam ganhar outro significado.

"Mamã... eu não posso desistir."

"Mamã... eu não posso desistir."

As palavras regressaram-lhe de súbito à memória.

Nítidas.

Como se tivessem sido ditas naquele preciso instante.

Sentiu um aperto no peito.

Na altura não lhes dera importância. Como poderia dar? Eram palavras de uma criança cansada, enfraquecida pela dor, pelos tratamentos e pelos dias intermináveis passados entre paredes brancas e corredores de hospital.

Mas agora...

Agora pareciam diferentes.

"Mamã... se desistir será pior."

Fechou os olhos.

Lembrava-se perfeitamente.

Naquela tarde Ella encontrava-se estranhamente tranquila. O corpo estava fraco, mas o rosto revelava uma serenidade que a perturbara.

Sentara-se junto à cama.

Pegara-lhe na mão.

E sorrira.

— Sabes, mamã...

— Diz, meu amor.

— Hoje tive uma visita.

Ela recordava-se de ter sorrido.

Achara tratar-se de alguma enfermeira, médica ou voluntária.

— Tiveste?

Ella acenara afirmativamente.

— Era uma senhora velhinha.

— Ah, sim?

— Disse-me para eu não desistir.

A mãe sentira um ligeiro aperto, mas continuara a sorrir.

— E o que mais te disse?

Ella permanecera calada durante alguns segundos.

O olhar perdera-se algures.

Como se observasse algo distante.

— Disse que se eu desistisse teria de fazer tudo outra vez.

A mãe engolira em seco.

— Fazer o quê, querida?

— Tudo.

Silêncio.

— Tudo o quê?

Ella voltara a olhar para ela.

E sorrira.

— Viver.

Quarenta e oito horas passaram.

Quarenta e oito longas horas.

Tempo suficiente para o funeral terminar, para os familiares regressarem às suas vidas e para o silêncio voltar a ocupar a casa.

Mas os pais de Ella não conseguiam esquecer, as palavras da velha mulher perseguiam-nos.

Nessa noite encontravam-se sentados na sala, rodeados por um vazio difícil de explicar.

O pai foi o primeiro a quebrar o silêncio.

— Não me sai da cabeça.

A mãe manteve os olhos fixos em frente.

— A mim também não.

— Aquela conversa...

Fez uma pausa.

— Aquela estranha mulher velha.

Ela suspirou lentamente.

— Sabes o que acho?

Ele olhou para ela.

— O quê?

— Acho que ela veio buscar a nossa filha.

O marido franziu a testa.

— Estás a falar da...

Ela assentiu.

— Da morte.

Silêncio.

— Andei a procurar aquelas palavras.

Ele olhou para ela, surpreendido.

— Procuraste?

— Pareciam latim.

Levantou lentamente uma folha de papel.

— Não encontrei exactamente o mesmo... mas encontrei algo parecido.

Olhou para ele.

A voz saiu quase num sussurro:

— "Permanece no limbo. A vida no céu pode esperar."

O homem ficou imóvel.

Não respondeu.

Lá fora o vento fazia estremecer os ramos das árvores.

— O que quer isso dizer?

Ela abanou lentamente a cabeça.

— Não sei.

Baixou os olhos.

— Mas há outra coisa que não me sai da cabeça.

Ele permaneceu em silêncio.

— A missão.

As lágrimas regressaram-lhe aos olhos.

— Talvez ela tivesse razão.

— Quem?

— Ella.

O pai ergueu lentamente a cabeça.

— Achas mesmo isso?

Ela respirou fundo.

— Não sei.

Olhou para o lugar vazio onde tantas vezes a filha brincara.

— Mas ela queria viver.

Fez uma pausa.

— Estava cansada...

A voz quebrou-se.

— Tão cansada...

Ele aproximou-se e segurou-lhe a mão e assim permaneceram assim durante alguns instantes.

Em silêncio.

Até que ela voltou a falar:

— E se voltar?

Ele olhou-a.

— O quê?

— E se aquilo tudo for verdade?

Os olhos encontraram-se.

Nenhum respondeu.

Porque ambos pensaram exactamente a mesma coisa.

Doze luas.

Tinham sido doze luas.

Um arrepio percorreu-lhes o corpo.

Não sabiam explicar porquê.

Mas sentiram-no.

Nitidamente.

Como uma presença.

Como algo invisível atravessando a sala.

Sentiram que alguém escutara aquelas palavras.

Ali.

Naquele momento.

E pela primeira vez desde a morte da filha, tiveram exactamente a mesma sensação.

Não estavam sozinhos.

Lá fora, por entre as nuvens escuras, a lua surgiu lentamente.

E algures...

Muito para além do alcance dos olhos humanos...

Uma pequena alma sorria.




Fim


Porto 19 de Junho de 2012


Texto publicado na Colectânea Ocultos Buracos da Pastelaria Studios


(Texto revisto em Maio de 2026.)

Deixo aqui um comentário que recebi por email da Teresa Noronha de Sintra.

"Caro escritor:

Ao ler, a sensação que tive foi de envolvimento com os temas, mas isso não significa necessariamente identificação pessoal com eles. Quando alguém escreve por desafio, muitas vezes vai procurar algo que tenha carga emocional forte precisamente porque cria conflito, drama e tensão narrativa.

E isso nota-se aqui: escolheste algo horrível — a morte de uma criança por cancro — e construíste à volta disso uma estrutura quase simbólica para tornar o peso suportável dentro da história. Em vez de ser apenas:

“uma criança morreu”

transformaste isso em:

  • uma missão interrompida;
  • uma explicação sobrenatural;
  • uma segunda oportunidade;
  • uma luta entre forças invisíveis.

Na prática, o texto parece estar constantemente a resistir à ideia de que aquilo possa ser só uma tragédia sem sentido. Não estou a dizer que essa era a tua intenção consciente meu querido António Gallobar, mas é a sensação que fica na leitura.

E há algo curioso: sendo um tema que detestas, sei isso porque tu mesmo o disseste, não o trataste de forma fria ou cruel. Não há exploração gratuita do sofrimento. O cancro aparece quase como uma força narrativa que roubou algo que não devia ter roubado. A atenção do texto está mais na perda e no significado da perda do que na doença em si.

Teresa Noronha"


 *** ***

O amor de costas voltadas.

Helena triste e solitária via-se a entrar pela vida dentro sem uma perspectiva real, sem encontrar alguém que a compreendesse, que lhe pudesse dar um pouco mais do que simples companhia numa ou noutra noite bem passada. Seria que estava destinada a ficar exclusivamente para “Tia”. Com vinte e oito anos feitos, não havia jeito de arranjar uma alma gémea que a fizesse realmente feliz. Amargurada por mais uma experiência frustrada. A última tentativa que fez resultou num autêntico fracasso. O homem com quem tinha saído as últimas três vezes afinal era casado. Quando descobriu tratou de o pôr no lugar certo, isto é na rua, ou para onde ele quisesse, menos na casa dela, muito menos ir para a cama com ela. Bem desconfiou, achava tudo demasiado “certinho”, não estava habituada a ter assim tanta sorte, ele apareceu-lhe na curva do caminho, aquele homem perfeito e disponível fez com que finalmente sonhasse, tal e qual como nos filmes depois de tomar um copo, foi assim um engate perfeito.

Não ela não era assim, apesar do seu ar modernaço, não era um qualquer que a levava assim sem mais nem menos. Com o passar dos anos viu todas as suas colegas, uma após outra, mal ou bem todas se foram arrumando, excepto Joana mais nova do que ela, todas as restantes, casadas mal casadas lá iam fazendo pela vida, só ela e a amiga pareciam teimar em não encontrar o seu caminho e uma queca é algo que não se deve dispensar, tema largamente debatido entre as duas como tema recorrente, estavam-se conformando com o caminho que começava a despontar, e, já achavam que quanto mais próximo estivessem dos trinta pior, mais dificuldades teriam e não tardaria a chegar a segunda vaga, isto é os mal casados que não tardariam a andar novamente atrás de mulheres, mas invariavelmente até nesse capitulo ficariam a perder novamente, pois regra geral estes apenas se interessam mesmo por miúdas, quanto mais novas melhor, lamentavam-se elas.

Independente vivendo a sua vida, sentindo-se uma mulher moderna bem à frente, para que precisaria ela de homem. Mais tarde ou mais cedo ver-se-ia forçada a comprar um aparelho que a satisfizesse sexualmente, mas a verdade é que não queria passar os seus dias, sozinha num celibato forçado. O desejo de ter a sua própria família levou-a a uma tomada de uma resolução arriscada e radical. Uma noite vestiu a roupa ousada que encontrou no guarda roupa, e saiu à rua disposta a tudo, literalmente ao engate.

Esta no seu período fértil, ainda pensou em recorrer a um banco de esperma, mas pensou em muitos ses, burocracias gente a dizer que nem pensar, amigos a meter o "bedelho", não esperaria mais, tinha que ser da forma que idealizara, fez novamente as contas à sua ovulação, tinha que ser naquela noite, não tomou nenhum contraceptivo, preservativo nem pensar sem usar qualquer forma de protecção contra a sida, completamente inconsciente, queria um filho sem pai, mais nada sem pensar em consequências muito menos se o filho gostaria um dia da ideia ou não caso soubesse disto. Nem pensou no assunto, precisava de um jovem adolescente com bom aspecto; arrastá-lo-ia sem a menor dificuldade para a sua cama; para ele não passaria de uma aventura, o trabalho estaria feito e terminado, nada de compromissos com ninguém, não queria saber o nome, nada que a ligá-se a ela que não fosse uma dádiva de esperma, envolvida numas horas de prazer... não o voltaria a ver e jamais lhe pediria paternidades; queria um filho e nada mais, a partir desse momento tudo iria ser diferente na sua vida, estava pelo menos certa disso.

Se melhor pensou, melhor o fez, bebeu uns copos para se esquecer da cara do rapaz e siga…

Na manhã do dia seguinte ligou para a amiga, para lhe contar a sua grande loucura a que chamou aventura, o resultado dessa noite era ainda incerto, mas certamente iria mudar radicalmente a sua vida.



*** ***

Coisas simples da infância


A brisa corre assobiando por entre os pinheiros, as pedras do caminho adornadas com líquenes e musgos onde a medo de forma esquiva se mostra a lagartixa que apanha os primeiros raios de sol, e se esconde ao mais leve movimento de quem sempre curioso a tenta apanhar ou simplesmente a observa nas sua bela paleta de cores brilhantes, fazendo parar no tempo que leva à infância, aos cheiros das lareiras que ardem, nos dias cinzentos de nevoeiro cerrado que desce lentamente da montanha e cobre num ai todo o vale de forma rápida e quase inexplicável, assim permanecendo dias a fio trazendo com ele o medo que ficou perdido lá atrás noutro tempo, noutro país. Acordar no inverno e ver tudo branquinho, poder deslizar monte a baixo em cima de uma crocha de pinheiro, até ao ribeiro congelado, tempos há muito perdidos na ainda curta memória como o canto dos carros de bois, percorrendo caminhos estreitos bem marcados nos chão, riscos paralelos deixados ao vento pelos montes onde a erva jamais crescerá, carregados de mato ou lenha para a padaria da vila de onde vinham aromas matinais que abririam apetites vorazes de uma juventude insaciável, ainda os consigo ouvir, pensava Joana,  procurando no fundo da sua memória, lembrando esse som que se prolongava languidamente como que um chorrilho ou um lamento arrastado, madeira contra madeira, ao passo do caminhar lento dos animais, madeira mal lubrificada, o azeite caro de mais para se desperdiçar em rodas de carros de bois, e assim assobiavam uma toada repetida até ao fim do mundo, apenas de vez em quando pontuado pela voz do moço que descalço caminhava na sua frente e que, só em dias de festa calçava solipas e soltava de onde a onde um berro, um “Chega pra láaaa…” cantado, uma vergastada no jugo, só para assustar, para sacudir a mosca como costumavam dizer, e assim conseguir levar os animais para onde queria e seguindo tranquilamente o seu caminho, completamente alheio àquela chiadeira infernal que os rodas do carro de bois produziam, ladeira a baixo, ladeira a cima até desaparecer para lá da curva do caminho feito de terra batida ou de saibro.

A vida ia assim decorrendo tranquila sem grandes sobressaltos na pacata vila, escondida entre vales e montes entrecortados por riachos e ribeiras que iam engrossando o rio, longe de tudo, qual pérola perdida entre serras. Viviam ali fazendo a sua vida, vidas quase anónimas longe do resto do mundo, vivendo como que um exílio forçado imposto por uma força distante e desumana que afastou os seus filhos da Pátria, como se Deus achasse melhor assim, para que não percam a essência da vida na sua vertente mais simples, para que jamais voltem a deixar-se contaminar por falsos idealismos catastróficos, numa catarse purificadora que leva o citadino o homem do mundo, a se tornar num simples homem do campo e aí refazer a vida que parecia irremediavelmente perdida, reaprendendo a amar as pedras do caminho, e reencontrar finalmente o Éden na terra depois de tão grande turbulência.

(Texto retirado do livro "Encontro com a vida")



*** ***

Uma pequena história... 


Sentou-se em cima da sua mesa de trabalho no escritório, descansando um pouco do dia turbulento que teve, com um pé no ar e outro meio apoiado no chão. Olhando através das réguas das persianas interiores, que lhe vedava as janelas, quando tinha reuniões, e não queria que o vissem.

Joana, a sua secretária, vendo-o com ar abatido, levantou-se do seu local de trabalho bateu levemente á porta, dizendo em surdina um “posso?”, ao que ele respondeu, um claro e inequívoco “sim”.

- O que é que o meu Doutorzinho tem? Está com um ar tão abatidinho!...
- Estou simplesmente cansado.
- Cansado? Quer que lhe faça uma massagem?
- Vá lá Joana, isto aqui é um local de trabalho.
- Diz lá que não era bom...

Joana era um desiderato para ele. Desinibida e moderna, não se fez rogada beijando-o ali mesmo.

Tocou o telefone. Alexandre atendeu, carregando no botão de alta voz, ouviu os gritos alterados a voz do patrão que lhe berrou:

- Seu estúpido é mesmo um burro incorrigível, podias ao menos fazer isso às escondidas, assim não me deixas alternativa senão ter que te despedir e já, podias ter mais consideração pela minha filha! Quero-te na Rua e já!

Um pequeno erro, tinha-se esquecido de fechar as malditas persianas e todos, os que estavam no escritório puderam testemunhar aquele momento de infidelidade.

Aparvalhado e apanhado de surpresa, vendo as persianas do seu escritório abertas, olhando através dela olhou para o gabinete do sogro que era em frente, vendo-o esbracejar. De permeio o amplo escritório, onde cerca de uma dúzia de empregados de escritório puderam ver certamente o que nunca deviam ter visto em hipótese alguma ver. Olhando para eles viu-os todos de cabeça baixa excepto a chefe do escritório, que o observava com ar de censura.

E agora que iria fazer da sua vida. Afastou-se de Joana saltando de cima da secretária, como se tivesse uma mola por baixo que o fez saltar. Com o sobrolho carregado por esta enorme contrariedade que lhe estava a acontecer, mandando-a sair de imediato. Não queria querer no que lhe estava a acontecer, logo na semana em que ia fazer seis anos de casado. Não tinha filhos, diziam que era ele tinha um ligeiro problema por isso não conseguia tê-los. Alex não convencido que o problema era mesmo seu, resolveu experimentar fora de casa. Há muito tempo que resistia aos encantos da sua secretária que sempre se vestiu não de forma inocente sempre mortinha de se meter debaixo dele, como se a tentação estivesse sempre presente. Há seis meses que andava literalmente de cabeça perdida com ela.

Correu para as persianas fechando-as, mas antes não deixou de olhar para os coscuvilheiros que estavam na sala ao lado, espiando-o pelo canto do olho, observando o que se passava no interior do seu escritório. Mandou-os baixinho àquele lado que todos sabem. Pegou na sua agenda, onde tinha todos os contactos das pessoas suas amigas. Pegou no casaco e saiu. Sabia que a mulher não tardaria nada que fosse avisada por algum funcionário, mortinho por lhe cair nas boas graças.

Conhecia bem o lado agressivo da mulher com quem vivia. Ambicioso Alex deixou-se levar pela filha do próprio patrão, o perfume pelo poder falou mais alto, ao casar com uma mulher quinze anos mais velha do que ele. Embora fosse uma mulher sofisticada, era uma linda mulher. Quarentona, capaz de fazer roer de inveja qualquer outra mulher. Alexandre Costa, não tinha a mais pequena intenção de a trocar muito menos por uma simples secretária, por uma miúda de vinte anos.

Havia uma questão pendente, Alexandre não tinha sido capaz de fazer um filho, o sogro não lhe perdoava, a sua filha não lhe dar um Herdeiro que tomasse conta um dia de todo o império. Diziam que era o genro que tinha um problema qualquer. Alex não queria de forma alguma estar a levantar questões com a família da mulher e prontificou-se para realizar todos os exames que lhe pedissem. A questão de ter ou não ter filhos e o desejo de experimentar novas sensações. A secretária encontrava-se sempre disponível, o desejo de se envolver sexualmente com ela foi muito mais forte do que poderia prever, já que a sua mulher raramente queria sexo com ele. Como é que ela poderia engravidar. Alex sabia que a mulher tinha pavor inconfessado de deformar o corpo. Por isso sempre manteve uma vida social intensa. Sempre com imensos compromissos com gente das mais díspares áreas, sempre com os fotógrafos atrás. Toda esta actividade, não lhe deixava grande tempo para satisfazer o marido. Daí à traição foi um pequeno passo.

Desde o dia em que a realizou diversas entrevistas, na procura de encontrar alguém para o secretariar. Apareceu-lhe uma candidata ao lugar, que suplantou todas as outras, pela exuberância da sua irreverente juventude. Desde esse primeiro momento ficou fascinado com os atributos físicos de Joana. Viu que esta estava disposta a conquistar o seu lugar ao sol, não se remeteu ao simples papel para o qual foi admitida. Após ter percebido o desejo que despertava em Alex, não se fez rogada e cada vez mais provocante até ao dia em que ele lhe tocou.

Meter-se com a secretária, mesmo debaixo do nariz do sogro. Foi um descuido imperdoável que lhe ia sair muito caro. Acabava ali a sua vida dourada. Não tardaria que as revistas que se interessam pelas questões relacionadas com a nata da sociedade rondassem como vampiros, dispostos a tudo para conseguirem um simples depoimento ou uma foto.

Pegou no seu carro e saiu rapidamente. Passou por casa, pegou nalgumas roupas e em dinheiro. O seu telemóvel tocou, viu no visor que era a mulher que lhe estava a ligar. Hesitou, deveria atender.

Não atendeu!

Sabia que tinha de se pôr a léguas dali, não tardaria que iria rebentar um escândalo sem precedentes. Já que toda a família da mulher vira neste incidente uma boa oportunidade para se livrarem do infértil, que não consegue cumprir com a sua obrigação, dar um filho àquela gente.

A mulher seria implacável quando o visse, dona e senhora de tudo, certamente lhe iria fazer a vida negra. Os dois anos de casado, não fizeram dele um homem rico, mas sempre que podia ia reforçando uma conta secreta que tinha num banco na Madeira.

Dirigiu-se ao aeroporto, que era relativamente perto da sua casa, consultou as partidas, comprou uma passagem dirigiu-se ao local de embarque, para fazer o check-in, uma hora levantou voo com destino a Paris.

Alex iria ter que começar tudo de novo, Portugal já era para ele. Uma semana depois, ligou para a amante, tentando saber novidades, sem nunca lhe referir onde estava, de toda a sua tragédia, acabava por sentir saudades da jovem. Pegou no telefone que tinha à sua cabeceira no quarto do hotel onde estava hospedado, ligou directamente para Portugal.

Joana encontrava-se já na cama quando o telefone tocou, passava já mais de quinze minutos da meia-noite.

Joana olhou para o visor do telemóvel, tentando ver se conhecia o número que lhe ligava. Era um confidencial. Atendeu timidamente, com o coração aos saltos, com medo de represálias. Sabia que mais tarde ou mais cedo haveria de acontecer algo. Havia sido despedida no mesmo dia em que Alex partiu. Nunca mais falara com ninguém. Imediatamente reconheceu a vós que lhe ligava, dando um grito de contente, quando ouviu do outro lado da linha a vós de Alex.

- Joana?
- Alex onde é que tu estás?
- Eu estou bem e tu?
- Mal! Tenho saudades tuas... Acrescentou ela, com voz suplicante. - Não me vens ver!
- Não posso! estou longe, muito longe! Diz-me o que é que aconteceu depois de eu sair?
- Fui despedida. Nunca mais vi ninguém...
- Então não sabes mais nada?
- Mais ou menos! A Amélia tem-me ligado a contar-me as novidades.
- Precisamos de falar, tenho muitas saudades tuas e das tuas massagens, queres vir ter comigo?
- Vou já...
- Calma, prepara as tuas coisas vou mandar-te um bilhete de avião pelo correio, para vires ter comigo, mas nada de dizeres a ninguém, nem à Amélia sequer e já agora conta-me tudo o que sabes.

Joana, feliz por ouvir o homem com quem sonhava dia e noite, acordada ou a dormir, não deixava de andar sempre com o pensamento nele. Havia pouco que contar, foi despedida, a mulher de Alex espumou-se toda no escritório, fez o maior escândalo que há memória no escritório da empresa. Mas a sua principal fonte de informação residia numa entrevista exclusiva que ela tinha dado a uma revista em que tinha posto ao sol a vida e a “impotência” do seu “Ex -”.

Joana sabia melhor que ninguém que era mentira. O seu amante era um homem perfeito. Segundo leu nessa revista tinha dado já ordens ao seu advogado para que solicitasse o divórcio o mais rapidamente possível, embora houvesse um pequeno problema, já que ninguém sabia onde ele se encontrava.

- Queres que te mande a revista?
- Para quê? Já sei o que essa senhora é capaz de dizer e de fazer. Não deixes que ela seja capaz de te fazer mal?
- A mim não. O velhote até foi meu amigo, no dia em que me despediu, entregou-me um cheque de vinte mil euros, para eu desaparecer do mapa...*

*** ***

O Professor “Rézinhas” e o 25 de Abril
Ontem reencontrei um meu amigo dos tempos de escola e esse encontro reavivou memórias desses tempos e porque a conversa tinha algo a ver com o próximo feriado nacional acabamos falando sobre o 25 de abril, dando algum sentido à frase “Onde é que estavas no 25 de Abril de 1974?”.
Pergunto à minha memória, onde é que estavas?
Faz trinta e cinco anos, o tempo passa rápido… e por vezes nem sentimos. Tínhamos treze ou catorze anos de idade, quando aconteceu esse dia que mudou as nossas vidas e a de muita gente, depois de tantos e tantos anos de sofrimento de guerras de perseguições políticas finalmente chegara o dia por que tantos esperavam e que iria mudar a face de Portugal aos olhos de todo o mundo, sem se perderem vidas humanas (ou quase…) apenas com uma vontade férrea de alguns para mudar o que parecia imutável há meio século. 
Um dia igual a tantos outros, como o de hoje, um belo dia de primavera, lembro por volta das 11h30m da manhã um velho conhecido de todos, entrou na sala com os seus cabelos brancos em pé, dirigindo-se à professora que dava a aula de Educação Visual, segredando algo inaudível. Todos naquela turma conhecíamos bem quem era aquele professor que acabara de entrar que com ar grave nos disse para irmos todos para casa, que não haveria mais aulas naquele dia, tinha havido uma revolução. 
Excelente, fantástico exclamaram num reboliço na sala a maioria, os mais curiosos acercaram-se dele junto à secretaria onde se sentavam os professores para darem as aulas e foram perguntando o que era isso de uma revolução, enquanto a maioria já corria pelos corredores em grande algazarra, gritando... não há aulas, não há aulas!. 
Voltando-se para os presentes e com voz embargada e visivelmente emocionado apenas nos disse que tinha acabado a “mordaça” acrescentando uns segundos depois, que apartir dali iríamos ser livres… acrescentando com voz baixa e tremula “...Se Deus quiser…” 
Agitação crescente em redor dos dois professores. A professora de Educação visual mantinha o rosto austero e de grande desagrado perante as explicações do colega aos alunos dizendo que não seria bem assim, visivelmente incomodada com o “à-vontade” com que falávamos com ele e ele connosco principalmente sobre um tema tabu proibidíssimo nos tempos que corriam e não compreendia como era possível que o colega se permitia a essas explicações vaticinando sem o esconder, que ele se iria dar mal e que já tinha idade para ter juízo, pegando na bolsa num rompante abandonou a sala saindo a vociferar, ele pouco incomodado com a colega encolheu os ombros e foi acrescentando naquela aula improvisada sobre a Liberdade, coisa que não sabíamos muito bem o que era. 
Mas nós não éramos livres? Questionavam-se alguns de nós em surdina. 
- Depois vos explico! A partir de hoje jamais será como até aqui… nasceu um novo dia, uma nova mentalidade que fará com que todos possamos dizer o que sentimos sem medos e receios de irmos parar à prisão. 
O velho professor foi dizendo entre outras coisas que, “Liberdade é responsabilidade” e que a “minha Liberdade acaba, quando começa a dos outros”, e que muitos se sacrificaram para que aquele dia finalmente pudesse acontecer. 
Foi mais uma grande lição daquele grande mestre que jamais poderei esquecer. Professor de uma disciplina que ninguém gostava (matemática...), odiada até por muitos, mas que era na época a cadeira mais fantástica que poderia ter e porquê? 
Entre outra coisa que lembro este senhor tinha uma estranha forma de leccionar, ensinava os alunos a copiar (para os testes dele e dos outros professores) mas dizia que, o poderíamos fazer desde que ele não visse, mas nos dias dos pontos ficava normalmente sentado lendo ou preparando a aula seguinte, impondo silêncio para que não nos distraíssemos e copiássemos bem, dizia que enquanto preparávamos as cábulas estávamos a aprender, passávamos horas e horas a fazer “copianços” longos e extensos, usávamos a criatividade, a fama dele era grande o que fazia com que não fosse muito bem visto pelos seus colegas que não achavam grande graça ao método, achávamos aquele professor fantástico e era mesmo! É o único de quem me lembro o nome e foi o único professor que tive com quem aprendi mesmo matemática o resto são conversas. 
Com isto do professor Rézinhas, quase esqueci de falar no 25 de Abril e que para haver Liberdade, é preciso quebrar algumas regras e ele quebrou-as e com êxito, ainda o lembro passados todos estes anos, é fantástico. Liberdade com responsabilidade... como ele muito bem dizia!

O primeiro texto original foi escrito após vinte anos sobre o vinte cinco de Abril, mas depois disso foi revisto e revisitado em vários momentos diferentes.
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